Mostrando postagens com marcador Solano Trindade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Solano Trindade. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Negros

Negros que escravizam
E vendem negros na África
Não são meus irmãos

Negros senhores na América
A serviço do capital
Não são meus irmãos

Negros opressores
Em qualquer parte do mundo
Não são meus irmãos

Só os negros oprimidos
Escravizados
Em luta por liberdade
São meus irmãos

Para estes tenho um poema
Grande como o Nilo

(Solano Trindade)

Congo

Pingo de chuva,
Que pinga,
Que pinga,
Pinga de leve
No meu coração.
Pingo de chuva
Tu lembras a canção,
Que um preto cansado,
Cantou para mim,
Pingo de chuva,
A canção é assim.

Congo meu congo
Aonde nasci
Jamais voltarei
Disto bem sei
Congo meu congo
Aonde nasci…

(Solano Trindade)

Canto dos Palmares

Eu canto aos Palmares
sem inveja de Virgílio de Homero
e de Camões
porque o meu canto
é o grito de uma raça
em plena luta pela liberdade!

Há batidos fortes
de bombos e atabaques
em pleno sol
Há gemidos nas palmeiras
soprados pelos ventos
Há gritos nas selvas
invadidas pelos fugitivos…

Eu canto aos Palmares
odiando opressores
de todos os povos
de todas as raças
de mão fechada
contra todas as tiranias!

Fecham minha boca
Mas deixam abertos os meus olhos
Maltratam meu corpo
Minha consciência se purifica
Eu fujo das mãos
Do maldito senhor!

Meu poema libertador
é cantado por todos,
até pelo rio.
Meus irmãos que morreram
muitos filhos deixaram
e todos sabem plantar
e manejar arcos;
muitas amadas morreram
mas muitas ficaram vivas,
dispostas para amar
seus ventres crescem
e nascem novos seres.

Rainhas e escravas

Da janela do apartamento
vejo só barracos do morro
onde moram as rainhas
do carnaval
imponentes rainhas negras
riquíssimas de ritmo e de sexo
Rainhas por três dias alegres
escravas no resto do ano…

(Solano Trindade)

Mandinga

Isto é mandinga negra
Isto é mandinga

Teus olhos de mãe d’água
pregando lirismo
teus seios escondidos
em Vila Isabel

Teus lábios mestiços
falando em beleza
no ritmo do samba
nos pingos da chuva
que molham o meu rosto

lirismo + lirismo
= a lirismo
(vamos somar na poesia)
é preciso aumentar a poesia
é preciso crescer e multiplicar
poeticamente

(Solano Trindade)

Tristes maracatus

Baticuns maracatucando
na minh’alma de moleque
Buneca negra na minha meninice
de “negro preto” de São José
Nas águas de calunga
a Kambinda me inspirando amor
O primeiro cafuné no mato verde
Da campina do Bodé
Rum de amor de negra
Rumpi de desejo de mulata
Lê de realização cafusa
Sons de protestos
Num mundo de guerra
E de ódio

Criação de Olorum
O mais tolerante dos deuses
O mais pacífico
Dos criadores
O mais estético
Dos chefes de raça

Tristes maracatus
Em maracatus alegres
Que se vão distantes
Em ritmo calmo de congo
Em acelerado moçambique
Em toque de Kêto
De Jejê e de Angola
Maracatus meus…

(Solano Trindade)

Reencarnação

Eu nasci
No inicio do século
(Revolução operária)
Nasci no Bairro de São José
Recife Pernambuco Brasil

D. Micaela
Foi a parteira que me pegou
E anunciou o meu Sexo
Homem!

A minha mãe
Foi operária cigarreira
Da Fábrica Caxias
Nascida de índio
E africano

Meu pai
Foi sapateiro
Especialista em Luis XV
Nasceu de branco e africano
Sabia falar em nagô

Meu pai era preto
Minha mãe era preta
Todos em casa são pretos

Deformação

Procurei no terreiro
Os Santos D’África
E não encontrei,
Só vi santos brancos
Me admirei…

Que fizeste dos teus santos
Dos teus santos pretinhos?
Ao negro perguntei.

Ele me respondeu:
Meus pretinhos se acabaram,
Agora,
Oxum, Yemanjá, Ogum,
É São Jorge,
São João,
E Nossa Senhora da Conceição.

Basta Negro!
Basta de deformação!

(Solano Trindade)

Macumba

Noite de Yemanjá
negro come acaçá
noite de Yemanjá
filha de Nanan
negro come acaçá
veste seu branco abebé

Toca o aguê
o caxixi
o agogô
o engona
o gã
o ilu
o lê
o roncó
o rum
o rumpi

Negro pula
negro dança
negro bebe
negro canta
negro vadia
noite e dia
sem parar
pro corpo de Yemanjá
pros cabelos de Obá
do Calunga
do mar

Cambondo sua
mas não cansa
cambondo geme
mas não chora
cambondo toca
até o dia amanhecer

Mulata cai no santo
corpo fica belo
mulata cai no santo
seus peitos ficam bonitos

Eu fico com vontade de amar…

(Solano Trindade)

Baianinha

Baianinha
vatapá permanente
doce de coco
cafuné dendê
você veio na hora
quentinha
pra minha vida
trazendo o dengo
do que eu precisava.

Candomblé da minha madrugada
batendo em mim
que sou tambor creoulo
com patuá
envolvendo meu pescoço
com patuá
envolvendo meu pescoço
botando em minha boca
feitiço de Iansã.
Você veio agora
como a revolução de Cuba
me animar a vida

Você veio agora
como a libertação do Congo
me tocando pra frente
e fazendo esquecer
o tempo
e a velhice.

Você veio agora
fazer mutirão comigo…

(Solano Trindade)

Velho atabaque

Velho atabaque
quantas coisas você falou para mim
quantos poemas você anunciou
Quantas poesias você me inspirou
às vezes cheio de banzo
às vezes com alegria
diamba rítmica
cachaça melódica
repetição telúrica
maracatu triste
mas gostoso como mulher…

Triste maracatu
escravo vestido de rei
loanda distante do corpo
e pertinho da alma
negras sem desodorante
com cheiro gostoso
de mulher africana
zabumba batucando
na alma de eu…

Velho atabaque
madeira de lei
couro de animais
mãos negras lhe batem
e o seu choro é música
e com sua música
dançam os homens
inspirados de luxúria
e procriação
Velho atabaque
gerador de humanidade…

(Solano Trindade)

O canto da liberdade

Ouço um novo canto,
Que sai da boca,
de todas as raças,
Com infinidade de ritmos…
Canto que faz dançar,
Todos os corpos,
De formas,
E coloridos diferentes…
Canto que faz vibrar,
Todas as almas,
De crenças,
E idealismos desiguais…
É o canto da liberdade,
Que está penetrando,
Em todos os ouvidos

(Solano Trindade)

Toque de reunir

Vinde irmãos macumbeiros
Espíritas, Católicos, Ateus.
Vinde todos os brasileiros.
Para a grande reunião.
Para combater a fome
Que mata nossa nação.

Vinde Maria Pucheria.
João de Deus. José Maria.
Anicacio. Zé Pretinho
Para a grande reunião
Para combater a malária
Que mata nossa nação

Vinde trapeiro, pedreiro.
Lavrador, arrumadeira.
Caixeiro, funcionário.
Combater a tuberculose
Que mata nossa nação.

Vinde irmãos sambistas.
Da favela. Da Mangueira.
Do Salgueiro. Estácio de Sá.
Para a grande reunião.
Combater o analfabetismo
Que mata a nossa nação.
Vinde poetas, pintores
Engenheiros, escritores.
Negociantes e médicos.
Para a grande reunião.
Combater o facismo
Que mata a nossa nação.

(Solano Trindade)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sou negro

À Dione Silva

Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gongôs e agogôs
Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor de engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu

Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso
Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh`alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação

Navio negreiro

Lá vem o navio negreiro
Lá vem ele sobre o mar
Lá vem o navio negreiro
Vamos minha gente olhar…

Lá vem o navio negreiro
Por água brasiliana
Lá vem o navio negreiro
Trazendo carga humana…

Lá vem o navio negreiro
Cheio de melancolia
Lá vem o navio negreiro
Cheinho de poesia…

Lá vem o navio negreiro
Com carga de resistência
Lá vem o navio negreiro

Cheinho de inteligência…