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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Germinação

A fusão entre
Primavera e inverno
Estreita-se de cócoras.

Olhos d'água
Banham as flores
Que brotam
Sob o aroma secundina,
Espalhando pelo jardim
Novas estações.

(Lidiane Ferreira)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

O espelho

Floresta negra
De galhos fortes...
acinzentada e enrugada
Reflete
Majestosamente
Meio século
De vida-liberdade.

(Lidiane Ferreira)

sábado, 28 de março de 2015

W.C.

Os batons jogados na pia,
Seios rígidos,
Corpos em erupção...
Descobrimentos...
Um amor juvenil
De duas ovelhas
Nas manhãs de catequese.

(Lidiane Ferreira)

Meia-noite

Pés quentes em chãos gelados
Passos lentos e trêmulos...
Janelas puladas...
No santuário
Um aroma absinto...
Festa dual
O pecado expelido pelo sexo
Enquanto Deus dormia.

(Lidiane Ferreira)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Poema primeiro

Do fundo do meu corpo apodrecido
(da vida negra que me foi dada)
Surge em meio aos vermes devoradores
Uma rosa também de cor preta
Que (re)compõe os meus órgãos
Massacrados por botas brancas
E com respingos de sangue.

(Lidiane Ferreira)

Quadrilátero

Vazio...
Há água e comida
Mas não há fome nem sede...
Muito menos felicidade.
O que há são apenas rabiscos
Versos
Borrões cor de sangue
Nos muros e papéis brancos
Da vida que me encarcera.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Setembro

Lábios em flor
umedecem
impregnando todo o campo
em estação primaveril.


Borboletas voam,
buscam sombra,
E com singelos tremores
abraçam aquele tronco macio


Roubam-lhe açúcares,
calores, amores
a calmaria depois do cio.

Chama

A quietude do quarto
em rendas vermelhas
Rompe-se aos contidos ruídos
lúbricos matinais…
dedo aveludado:
Verdadeiro causador de incêndios
libido...
Volúpia ímpar
Em lábios pedintes.

Vigília

Meu corpo febril
Tremia encarcerado pelo desejo:
Sensível a toques
me pus de joelhos
a sussurrar uma piedosa oração
Mãos firmes
me fizeram beijar o chão
E a minha oração
Foi-se rapidamente
Em meio aos gemidos de paixão.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Velados para Deus

Sem oração,
mãos brancas
de crianças pretas
estendem-se
em escadarias de igrejas...
passam despercebidas...
por corpos embranquecidos
e cobertos de rubi.

(Lidiane Ferreira - Enegrescência, 2013, p. 69)

Oculta raiz robusta

branca,
Preta,
Mestiça
e até Café-com-leite.

[A que mundo pertenço?]
da teoria do embranquecimento
aos quadris largos e nariz desafilado.

Com pele fortemente pigmentada
de olhos amendoados.
Cabelos crespos. Cabelos crespos não!
cabelos QUIMICAMENTE tratados.

branca, Preta ou mestiça?
Que raça me daria?
avó loira + avô índio = mãe negra?
E o meu pai... e o pai... e o pai... já sei!
Um indivíduo oculto.

Então minhas raízes seriam ocultas?

(Lidiane Ferreira - Enegrescência, 2013, p. 52-53)

Estatísticas têm cor

              Preconceito
      enRaizado.
               Esclarecidos
fesTejam
                             Os homicídios diários
                                                           dos descendentes de zumbi.

(Lidiane Ferreira - Enegrescência, 2013, p. 39)

Canais afribrancos

Num cantinho escuro da senzala
Um sinhô de botas abaixa as calças.
Açoita a ninfeta dos seios avantajados
Rasga-lhe seu único vestido de tecido caro...
Branco penetrável nos canais africanos
Filho de preto com branco,
Homem preso e liberto.
Legiões de mulas geradas em ventres pretos
Hoje são os ET’S do meio termo.

(Lidiane Ferreira - Enegrescência, 2013, p. 27)

Afogamento

Microbactérias abraçam
aquele emaranhado de células-tronco
afogado no vaso sanitário
em uma casa de barro…
excreção de uma mulher
do subúrbio ferroviário.

(Lidiane Ferreira - Enegrescência, 2013, p. 13)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

V   ABUSO COLONIAL:  F

I                                                       E

N                PRETA                    M

G                                           I

A                                  N

N                          I

Ç                 N

A




(Lidiane Ferreira - Enegrescência, 2013, p. 12)

Transform-ação

Nasci livre.

o berço do morro
Para eles é sempre uma ameaça.

Prenderam-me:
Soltaram os meus cachos!
Negaram minhas raízes
Ensurdeci emudeci ceguei.
 A boneca preta com belas curvas
É só um corpo oco abusado constantemente.
de beiço grande, obrigada a ficar calada.

Corpo carente de respeito!

Cada pigmento da pele africanizada
De feições e ações animalizadas
entre sangue e tortura, luta:

Quebrando fortes cadeados enferrujados.
Mãos calejadas são
as chaves da libertação
de mais uma que luta contra
os princípios dessa nação.

(Lidiane Ferreira - Enegrescência, 2013, p. 67-68)