Amei Gilberto, Miguel, Roberto
Arrebatadamente, sonhos de amor primeiro
E tive Lia,
Melanie,
Alex.
Amei Paulinhos (foram dois), Jorge, Vilela
Amores confusos e tumultuados
Delírios de amor e carne.
E tive Isabela,
Ágata,
Mel
Fui amado Steve (meu amor canadense),
Toni (amor manso como o que) e tive
Deidre,
Ayô e Romeu.
Pais e Filhos que nunca se conheceram.
Aborto... um direito só meu.
(Lia Vieira - Ogum's Toques Negros: Coletânea Poética, 2014, p. 136)
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sexta-feira, 25 de setembro de 2015
Curió
Ele era sempre sorriso e riso
E gargalhadas escancaradas.
Dançava samba de roda, jogava capoeira,
animava bailes.
O cabelo bem cometido sob a leve camada de óleo
Os sapatos de um engraxado absoluto,
o brilho retumbante.
A tranqüila camisa de seda.
No pescoço, a conta grossa de aço.
Simpatia e adjacências. Mútua reciprocidade.
Curió de Vila Isabel. Gostavam dele. Ele de todos.
De pé ele estava, ali na parada de ônibus:
A viatura se aproxima.
"Abra os bolsos! Vire de costas! Mostre as mãos!"
Alguns protestos. O policial se redobrou.
"Entre na viatura"...
Curió, o rosto anoitecido, retrucou:
Nestas terras seu moço, nunca ninguém ousou
nenhuma afronta sem troco
nem agravo sem resposta.
A lei chamou outro da lei.
Tiros, gritos, correria...
O Curió calou o canto do encanto.
Só o sussurro das asas
Em sumida revoada.
Assassinato diário de pássaros.
(Lia Vieira - Ogum's Toques Negros: Coletânea Poética, 2014, p. 132)
E gargalhadas escancaradas.
Dançava samba de roda, jogava capoeira,
animava bailes.
O cabelo bem cometido sob a leve camada de óleo
Os sapatos de um engraxado absoluto,
o brilho retumbante.
A tranqüila camisa de seda.
No pescoço, a conta grossa de aço.
Simpatia e adjacências. Mútua reciprocidade.
Curió de Vila Isabel. Gostavam dele. Ele de todos.
De pé ele estava, ali na parada de ônibus:
A viatura se aproxima.
"Abra os bolsos! Vire de costas! Mostre as mãos!"
Alguns protestos. O policial se redobrou.
"Entre na viatura"...
Curió, o rosto anoitecido, retrucou:
Nestas terras seu moço, nunca ninguém ousou
nenhuma afronta sem troco
nem agravo sem resposta.
A lei chamou outro da lei.
Tiros, gritos, correria...
O Curió calou o canto do encanto.
Só o sussurro das asas
Em sumida revoada.
Assassinato diário de pássaros.
(Lia Vieira - Ogum's Toques Negros: Coletânea Poética, 2014, p. 132)
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Nós voláteis
Billie Holliday e aquela solidão arretada,
numa noite de sábado.
O feriadão levara as pessoas.
Para disfarçar o tempo, queimou um comercial
e ligou a tevê sem o som.
Para ocupar suas idéias,
uma variação de literatura esotérica.
Nesta digressão filosófica, o teto começou a vibrar.
Atentou para o ruído e
percebeu que a libido no apartamento de cima começara.
Estavam literalmente fodendo na sua cabeça.
Aqueles rangidos e gemidos ritmados
lhe despertavam desejos adormecidos até então.
Seu corpo retesou-se e arqueou-se em ondas, enquanto a
dupla alienígena
completava a encenação.
Lá fora, a vida fervilhava, e ela
solitariamente pegava uma carona
nesse trem de fantasias.
(Lia Vieira - Cadernos Negros, os melhores poemas)
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