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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Bângala

Quando vou para o Bângala, onde morou Caymmi,
nasceu Luís Gama
Passo por Santana, Independência e:
Lama desfraldada como flâmula.

Gente, vaga gente, vagas
Pele, ossos, fumaças sem afagos
Entre sucatas e indecências
Contraponto entre Santana e Independência...

Carne, prato exposto, putrefato
Mercado vivo, sociedade de araque
Liberdade, dignidade, só boato
Tudo se resume ao trasgo do crack
Esqueléticas damas, dissolutas
Quase todas negras, é claro
Imagens vagantes, mortas, quixotescas não raro
Vistas apenas como putas
Os outros, catadores, reciclam a vida em alumínio, papel
Breves furtos, todos brincam
Sob a angústia do mesmo céu

Quando vou para o Bângala, meio demente
Onde morou Caymmi, nasceu Luís Gama
Transito nesta irônica antítese - Independência - de tantos
dependentes
E passo pelo quase fim da raça humana.

(José Carlos Limeira - Ogum's Toques Negros: Coletânea Poética, 2014, p. 121)

Em Tanto ao Mar foram docas, grutas, locas

Buscando te encontrar
Agora refaço planos, cometidos tantos enganos
A nau segue seu rumo, navegar, navegar
Nosso oceano não é mediterrâneo
Nem será pacífico
talvez um tanto índico e indico
novos rumos e faróis, fronteiras, guerras e sementes
quero esse odor de velas içadas
possuo genoas e bujas todas infladas
nem sei se bombordo é mesmo bom
quem sabe boreste seja a guinada
sobre o atol dos teus lábios dos quais pouco provo
ao navegar me renovo e me lanço ao oceano atlântico
de novo desejo, e descubro outras enseadas
numa baía secreta e repleta de teus beijos!

(José Carlos Limeira - Ogum's Toques Negros: Coletânea Poética, 2014, p. 120)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Entradas e serviços

(Para Milton Nascimento)

Quando eles chegaram
eu estava absorto
no meu tempo
trabalhando ferro,
plantando,
fazendo
minhas próprias guerras.
Tinha as portas abertas
pois pouco sabia deles
entraram com suas armas
me tiraram da cama
justo quando descansava.
Me puseram correntes
e caminhei
os mares
no ventre fétido
de grandes barcos.
Cheguei em terras
que haviam tomado de outros
fiz tudo por aqui
enquanto eles
de braços cruzados,
bebiam meu suor.
Seu tédio era tão grande
que ainda lhes dei
chula, samba, mambo
blues, rumba, calipso
jazz
para vê-los, pelo menos
mexer suas carcaças inertes.
Hoje vendo esse passado
posso, devo dizer
não.
Estou mais do que farto
de entrar pela porta dos fundos.

(José Carlos Limeira - Atabaques, p. 15)

Zumbi...dos

Daqui de onde estou,
Ouço os primeiros ruídos.
Abafados, subterrâneos,
Como os sussurros cuidadosos,
Por meus avós também ouvidos.
Da nova gente que surge,
Com a coragem de herança,
Legadas por Zumbi,
Quase esquecida pela força,
Quase sangrada pelas alegorias,
Quase morta pelos passos na avenida.
Daqui de onde estou,
Sussurro também cauteloso,
Para despertar outros ouvidos,
E destravar outras bocas,
Para sussurrarmos todos um dia,
E fazermos um barulho,
Que será tal,
Que se transformará,
Em fala!
E das falas virão os gritos,
Não de dor, mas de vitória,
Como são vitoriosos os sussurros,
De nossa gente agora,
Pois estão acordados,
Para dizer,
Com a força de Ganga Zumba
E a altivez de X:
Que somos!
Faremos!
Bem alto!
Como as torres de Palmares.

(José Carlos Limeira - O arco-íris negro, p. 64)

Insônias

Saudades das Tuas noites
Fogueiras que eu não vi
Palmares, Estado Negro...
(vivo pensando em ti)

Como não estar
Na podridão do Mangue
Nas ratazanas da zona
Na multidão de bucetas infectas
Como não estar no barulho da britadeira
Na comida azeda, na marmita fria
Como não estar na fome do meu filho
Já nascido com jeito de morte
Como não estar no lio das madames
No cheiro da gordura da pia
Nas bostas dos barões boiando na latrina
Como não estar no trem lotado, no barraco caindo
No camburão, na porrada nos dentes
No lodo. Do fundo de cada cela
Como, se tudo isso sou eu?

Quilombos, meus sonhos
Sofro de uma insônia eterna de viver vocês

Vivo da certeza de renascê-los amanhã,
Se um distinto senhor vier me dizer
Para não pensar nessas coisa
Vou Ter de matá-lo, com um certo prazer.

Por menos que conte a história
Não te esqueço meu povo
Se Palmares não vive mais
Faremos Palmares de novo

(José Carlos Limeira - Atabaques, p. 19-23)