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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Sensus

Falamos a mesma língua
Do raiar do tempo
Falamos a mesma língua
Sussurada pelo vento
A língua do céu
Neste Sol da alvorada
Da nuvem sem véu
Em labareda
Falamos o toque
A vontade
A veia
O sangue...
A Vida em ascendência
Quimera em Transcendência

A língua que nos refaz
Em dias lentos
Transforma-nos
Em eternos
Vencedores do silêncio

Falamos sem voz
Em alta voz
A língua
A língua
A secreta
Língua
Falamos falamos
O toque
A vontade
De nascer...
A língua...
A língua da pele
O poema da pedra.

(Hirondina Joshua - poeta moçambicana)

Nocturno

É zero hora.
Não consigo.
Nem a minha alma dorme na noite em mim.
Não quero fazer nada. Não fazendo faço um exercício incompreensível: próprio da noite.
É zero hora. Encontro êthos passivos nos substantivos inabaláveis duma alquimia que desconheço e volto ao começo: penso e existo e não durmo e não me sou e não estou e não me conheço e quase me perco. Sou transitável, espírito devasso.

Comboio em caudas clandestinas. Subo até ao horizonte, sento-me ao lado da razão. A noite já bêbada, todo resto que me restou. Sou eu mesma, o demónio do devaneio. A substância intáctil da matéria. Já de nada sei. Já aqui não estou...

(Hirondina Joshua - poeta moçambicana)