Mostrando postagens com marcador Edimilson de Almeida Pereira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Edimilson de Almeida Pereira. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Despedida

Deixo o corpo, auê, ê.
Noutro campo
vejo os antigos.

Ergo a toalha
onde as cores são outras
(Lá fora gunga não chora).

Ergo espada com os antigos.
Noutro campo
aprendo o mesmo canto.

(Edimilson de Almeida Pereira)

Caderno de retorno

Pele radar que indexa
            um looping
            ao atabaque
            um anjo
            à sua queda
            Iracema
            à sua novela
alvo que incinera um atirador
            no teto

(…)

Para uso irrestrito a pele em desafio
            a todo gesto
coleção de selos que o vento
            dispersa da janela

(…)

A pele procura os naipes para
            entrar no jogo
mais se arroja quando desnuda
            o homem
            através do verbo

(…)

Pele não é o cárcere nem
            o texto
            o papel
            a retícula
            para roteiro em zoom
quiçá um mapa que muda enquanto viaja
            e se fixa quando
            escorregadia
                nos tece

(…)

Estou de volta a casa não para visitar
os carneiros da minha gente
uma vez mortos
                                   expostos.
O que espero deles não é carne
                                   mas raiz e errância.
A experiência acumulada sendo
            o último da classe
            o único entre os outros
            o suspeito número um
            a prova no fundo do poço
apodreceu para adubar minha vontade.

Numa paisagem, outra

o unguento e, às vezes,
a colônia de morte,
sangram através do pensamento, lâmina
que toca a jugular

se animal em pelo, se apenas
recipiente,
quem saberá? enquanto se esgueiram
refazem os modos de si

alguém que os interpreta
há muito não goza de confiança
por isso, os gritos
com que intenta mover as pedras

quem contesta o descendente
e as razões
que o fazem irmão da gazela
inimigo da febre?

não seremos nós, os que portam
a camisa sem idiomas,
nem as mulheres
a quem reservam o teto da casa
e nenhuma epígrafe

a contestação faz-se por si mesma
a jugular não se entrega ao braço
que desfere o golpe
e se esgota nesse gesto

não, o sacrifício não está no mel
que incendeia, de tempos em tempos,
a viagem dos parentes

as ondas que mudam por si mesmas
disseram adeus às certezas,
nós ainda não
(pelo menos aqueles que se julgam
primo dos primeiros)

como nos enfrentaremos sob a ordem
que tropeça?
mil sendas se abrem e a seiva do pai,
como o recém-nascido,
se perdeu num corpo maior

ninguém está lá, a não ser
quem te conhece e estranha, não
o charme de irmão,
não espere entendimento se ele fizer
um círculo na areia

não há cortes que expliquem
a paisagem anterior, nem a sombra, amanhã,
nos caules

o que se espraia da jugular
é um labirinto que conduz a outro e se algum
vestígio resta
é para dizer seu afastamento da origem

as leituras faliram
se o descendente insiste,
rasga os seres para os quais não temos
saúde

nesse deserto de alegrias, a herança
é o animal que saqueia o verbo
antes do sacrifício

(Edimilson de Almeida Pereira)

Ranhuras

Não há direção
no labirinto.
A vida e sua cárie
são exatas, no entanto.

Da outra margem
exploram o espelho
e me contam
o que permanece,
se me modifico.

Entro nessa direção
sem roteiros.
O que aí se mostra
são mapas
de outros mapas.

(Edimilson de Almeida Pereira)