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terça-feira, 14 de abril de 2015

Blackness

Blackness, blackness
Duas vezes ao dia
A humanidade do negro como filosofia
Blackness, blackness
Duas vezes ao dia

Sobrevivi ao terrorismo do desânimo
Olhando para trás sem medo
Mergulhando em minhas raízes
Afrocentrando o meu corpo
Aprendendo com meus ancestrais

Blackness, Blackness
Duas vezes ao dia
A humanidade do negro como filosofia
Blackness, blackness
Duas vezes ao dia

O boi da cara preta revelou sua identidade
Apareceu consciente de sua alteridade
Conversamos sobre as urgências da negritude
Decidi levar uma existência menos hermética
Focando na minha africanidade sincrética

Blackness, blackness
Duas vezes ao dia
A humanidade do negro como filosofia
Blackness, blackness
Duas vezes ao dia

Coloque isso na sua mente
Não há como tornar-se negro impunemente
É preciso resgatar cada irmão
Mais solidariedade no nosso quilombo chão

Blackness, blackness
Duas vezes ao dia
A humanidade do negro como filosofia
Blackness, blackness
Duas vezes ao dia.

(Cristiane Sobral - Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz. Ed. Teixeira. 1ª ed. Brasília. 2014)

Não vou mais lavar os pratos

Nem vou limpar a poeira dos móveis
Sinto muito. Comecei a ler
Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi
Não levo mais o lixo para a lixeira
Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal
Sinto muito. Depois de ler percebi a estética dos pratos
a estética dos traços, a ética
A estática
Olho minhas mãos quando mudam a página dos livros
mãos bem mais macias que antes
e sinto que posso começar a ser a todo instante
Sinto
Qualquer coisa
Não vou mais lavar
Nem levar.
Seus tapetes para lavar a seco
Tenho os olhos rasos d’água
Sinto muito
Agora que comecei a ler, quero entender
O porquê, por quê? E o porquê
Existem coisas
Eu li, e li, e li
Eu até sorri
E deixei o feijão queimar…
Olha que o feijão sempre demora a ficar pronto
Considere que os tempos agora são outros…
Ah,
Esqueci de dizer. Não vou mais
Resolvi ficar um tempo comigo
Resolvi ler sobre o que se passa conosco
Você nem me espere. Você nem me chame. Não vou
De tudo o que jamais li, de tudo o que jamais entendi
você foi o que passou
Passou do limite, passou da medida, passou do alfabeto
Desalfabetizou
Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira
Nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para lá e de lá para cá
Desinfetarei as minhas mãos e não tocarei suas partes móveis
Não tocarei no álcool
Depois de tantos anos alfabetizada, aprendi a ler
Depois de tanto tempo juntos, aprendi a separar
Meu tênis do seu sapato
Minha gaveta das suas gravatas
Meu perfume do seu cheiro
Minha tela da sua moldura
Sendo assim, não lavo mais nada
e olho a sujeira no fundo do copo
Sempre chega o momento
De sacudir, de investir, de traduzir
Não lavo mais pratos
Li a assinatura da minha lei áurea escrita em negro maiúsculo
Em letras tamanho 18, espaço duplo
Aboli
Não lavo mais os pratos
Quero travessas de prata, cozinhas de luxo
E jóias de ouro
Legítimas
Está decretada a lei áurea.

(Cristiane Sobral - Não vou mais lavar os pratos. Dulcina Editora. 2ª Edição. 2011. Brasília)

Página Preta

uma página preta
não dá conta da nossa demanda
mas já é um outro negro começo

uma página preta
não é tudo o que queremos
mas já anima o corpo cansado da luta

uma página preta
em tempos de tanta besteira
um ensaio sobre José Carlos Limeira
preta página subvertendo a lógica da procura
salpicando tinta fértil nesse universo de brancura

o mundo em preta cor
uma página preta
invadindo a retina do planeta
mostrando que o preto combina
com tudo.

(Cristiane Sobral - Cadernos Negros 37. Poemas Afro-Brasileiros. São Paulo. 2014. Antologia. Ed. Quilombhoje.

Pixaim elétrico

Naquele dia
Meu pixaim elétrico gritava alto
Provocava sem alisar ninguém
Meu cabelo estava cheio de si

Naquele dia
Preparei a carapinha para enfrentar
A monotonia da paisagem da estrada
Soltei os grampos e segui
De cara para o vento
Bem desaforada
Sem esconder volumes nem negar raízes

Pura filosofia
Meu cabelo escuro, crespo, alto e grave
Quase um caso de polícia em meio à pasmaceira da cidade
Incomodou identidades e pariu novas cabeças

Abaixo a demagogia
Soltei as amarras e recusei qualquer relaxante
Assumi as minhas raízes
ainda que brincasse com alguns matizes
Confrontando o meu pixaim elétrico
com as cores pálidas do dia

Pixaim, elétrico!

(Cristiane Sobral - Não vou mais lavar os pratos. Dulcina Editora. 2ª Edição. 2011. Brasília)

Escurecimento necessário

Inveja branca?
vê se te manca
é tudo farinha
do mesmo saco
racista.