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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ancestralidade

Sobre a minha pele de cágado
afloram veios ancestrais,
lâminas vívidas cortantes.

Um dia escorri da ladeira.
Paralelepípedos negro-azeviche
faiscaram do chão:

Só aí entendi vida,
pedreiras,
levantes

e o "morrer para germinar"

(Ari Sacramento - Ogum's Toques: Coletânea Poética, 2014, p. 55)

Linguística de Corpora

Meto a langue
em qualquer parole,
desde que encarne
nos sulcos de qualquer competência
atos, sinuosos, de fala de vida.
Recuso autópsias morfossintáticas.

Neurastênico, desisti
sin-,
dia-,
pan-:
matei Chrónos!
Vitimei cada algarismo dos séculos romanos!

Quero agora mêta-sincronismo.
Sadomasoquismo sintático!
vou reger de perto
objetos diretos "alterados" e
os indiretos, depravados...

Só experimento
africadas
palatalizadas
quando, líquidas, confusas...

Só não me falem dos tópicos selvagens,
coloniais de vastos portugais!

(Ari Sacramento - Ogum's Toques Negros: Coletânea Poética, 2014, p. 52-53)

Poema perdido

A Diogo Lessa

O cu da musa te deslinda, à pele,
invagina o equilíbrio:
- Não adiantará louvar-me,
Cativo!

- Meus lábios logo torcerão o falo soluçante...
- Pronto! Laudo médico:
"Asfixia fendo-peniana: fagocitose!"
O povo na rua:
"- Morreu de cul-pa"

Eis agora, a memória do vitimado
no Livro de Atos:
- Ó embebido ululante, fal(h)o,
o meu verso é pra t'engolir.

(Ari Sacramento - Ogum's Toques Negros: Coletânea Poética, 2014, p. 50)

Cura

Só aceito cura das flores de meu pai!

aos Robins,
intelectuais orgânicos,
feminismos burgueses, o meu não!
Todos Hoods.

Vou é ter com as filhas de Oyá:
tabuleiro,
vida...
acará

(Ari Sacramento - Ogum's Toques Negros: Coletânea Poética, 2014, p. 49)

Orações insubordinadas

Quando o dizer não se aquartela em palavras,
o amor faz samba, de terno e de saia
e obriga a voz, rouca e esfaimada
a puxar pelos braços, cinturas, pernas
tesão e saudade.

(Ari Sacramento - Ogum's Toques Negros: Coletânea Poética, 2014, p. 48)